Uma moeda de prata

29/09/2017

Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!' Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. Mt 20,8-10

Por que o patrão quis pagar os trabalhadores da primeira hora por últimos? Ele queria mesmo que todos ficassem sabendo que também quem trabalhou uma hora só teria recebido o mesmo valor! Mas isto, claramente, não para que uns começassem a reclamar... Na realidade, é o próprio patrão que está "reclamando"! Por que?

Como todo texto dos Evangelhos, Mateus contou esta história de Jesus não apenas para que fosse registrada entre as parábolas do mestre... Mateus, em primeiro lugar, está cuidando de uma comunidade cristã, e a esta comunidade ele fala e ensina a partir da vida de Jesus que ele conheceu como testemunha ocular.

Assim, à comunidade de Mateus pertenciam cristãos que, antes de aderir ao anúncio do Evangelho feito pelos Apóstolos, eram judeus fervorosos... com eles, porém, estavam também pessoas que antes pertenciam a outras religiões, pessoas que antes eram chamadas pelos judeus de "pagãos"...

Os primeiros, os cristãos que vinham do judaísmo, são os "trabalhadores da primeira hora", enquanto os cristãos provenientes do paganismo são "trabalhadores da última hora"... Isto significa que Mateus, a partir do conhecimento que tinha de Jesus, a partir da revelação que o Espírito Santo lhe deu sobre a vida, sobre o senso das coisas, sobre Deus... a partir de tudo isso ele conta uma história.

Mateus conta uma história para evangelizar sua comunidade, para que as pessoas possam entender que a única "moeda de prata" que todo mundo recebe é a totalidade do amor de Deus oferecida a cada pessoa, a todos, sem distinção... Mateus fala através de Jesus, na figura do patrão da parábola, e chama atenção ao pessoal da sua comunidade que começava a fazer distinção entre as pessoas...

De fato, havia cristãos que podiam se vangloriar de sua herança judaica, que podiam se considerar trabalhadores com direitos superiores a outros, havia cristão, na comunidade de Mateus, que acabavam se considerando melhores de outros membros da mesma comunidade... mas tudo isso Mateus não podia deixar passar! Ele, que tinha conhecido Jesus, ele que tinha entendido realmente o sentido do amor de Deus que arrasa completamente com estas lógicas humanas mesquinhas, não podia ficar calado...

Mateus, assim, testemunha a verdade, ensina à sua comunidade, sabendo muito bem que mesmo se abraçamos a fé em Jesus, dentro de nós estamos ainda poluídos de todas as formas... Aquilo que acontecia na comunidade de Mateus, de fato, continua acontecendo em nossas comunidades! Ainda nossa vida cristã é uma vida poluída que precisa ser continuamente evangelizada...

Ainda precisamos muito nos dar conta e entender o que é esta "moeda de prata" que o patrão da vinha quer nos dar... ainda precisamos nos dar conta que o que vale é trabalhar na vinha! O que vale é abrir o coração ao Mistério de Deus que nos transforma de pessoas encostadas na praça, - ou seja, pessoas abandonadas ao pecado e às ilusões do mundo -, a trabalhadores: pessoas dispostas a doar-se completamente como Jesus para o Reino de Deus...

Por isso Mateus não apenas chama atenção à sua comunidade para que não haja comentários bestas de quem se acha mais merecedor de outros... Ele quer que a comunidade preste atenção á atitude do patrão que sai a todas as horas do dia para procurar trabalhadores: Mateus quer que seus irmãos de comunidade compreendam como é o coração de Jesus, como é o coração de Deus...

Assim que deve ser o coração do cristão: como o coração daquele que, incansavelmente, vai em busca do outro para que ele também possa mergulhar no amor e se tornar "trabalhador". Pois nunca é tarde para abrir o coração a Jesus, nunca é tarde para dizer "sim" ao amor, pois aquele "sim" vale o Céu inteiro, "uma moeda de prata".