Tradicionalismo e modernismo

27/08/2018

Por tradicionalismo se entende aquele modo de entender a fé de forma integrista, pelo qual a salvação consiste na exatidão da execução de normas divinas e inquestionáveis. Tal execução de normas, por sua vez, é considerada o único meio para evitar a condenação ao inferno.

No tradicionalismo, o foco da vivência religiosa está na observância integral desse conjunto de normas tanto em nível prático (moral), quanto em nível racional (doutrina). O essencial da fé está em garantir essa observância para além de qualquer interferência externa, sendo que o mínimo desvio acarretaria a falência completa de tudo, isto é a danação eterna.

No tradicionalismo, o ser humano é radicalmente um ser pecador na absoluta solidão, incapaz de qualquer relação autêntica com Deus e com os outros, ao qual é oferecida, por graça imerecida, uma única chance de salvação: aquela execução perfeita de normas indicadas por Deus mesmo, sem nenhuma margem de erro. Tal perfeita execução, corresponde, depois, à pertença à Igreja.

O tradicionalismo há de ser considerado um "câncer" na Igreja, porque é provocado por uma visão cancerígena do ser humano que, por sua vez, gera a massa tumoral que corresponde àquele modo errado de entender a fé veiculado como sendo o modo autêntico.

Na realidade, o ser humano vive a salvação através das relações humanas que o próprio Jesus, enquanto ser humano, vive, e continua nos disponibilizando através do amor humano, através de relações autenticamente humanizadas. Ou seja, a salvação não se dá através da rejeição da natureza humana, mas, pelo contrário, por uma vivência autêntica da mesma.

O modernismo surgiu na sociedade cristã ocidental como rejeição radical daquela visão antropológica do integrismo cristão, falsa, e extremamente depreciadora da pessoa, continuamente conivente com uma organização da sociedade hierarquizada a partir de relações de poder religioso.

Objetivo do modernismo foi, portanto, livrar-se daquela escravidão antropológica do integrismo cristão, elaborando uma visão alternativa do ser humano. Visão, que, necessariamente, teria considerado a fé cristã como elemento alheio, e a Igreja como principal inimigo, mesmo por causa da falsa fé do integrismo, veiculada na sociedade como a verdadeira fé cristã.

Assim, o modernismo há de ser considerado como uma quimioterapia porque visa matar apenas as células cancerígenas no corpo eclesial, aquelas células que correspondem, na Igreja, a uma visão falsa e falsificadora do ser humano e de Deus. Livrando a Igreja desse tumor, também esta ação agressiva e traumática, do modernismo no corpo todo da Igreja (tanto quanto uma sessão de quimioterapia), deixará de existir.

Afinal, para o demônio, é suficiente nos empurrar ligeiramente no plano inclinado do nosso medo de não ser amados por Deus, pois, uma vez que começaremos a descer por aí, nós mesmos iremos transformar nossa vida num inferno e a infernizar a vida dos outros.