Os enganos da vida

09/06/2018

A serpente enganou-me e eu comi. (Gn 3,13)

Quantas vezes isso aconteceu conosco! Quanto profundamente estamos nos deixando enganar! Quantas mentiras, neste exato momento da nossa vida, estão poluindo nossa mente e obscurecendo nosso coração!

Mas a serpente consegue fazer isso conosco porque nossa própria vida é uma incessante busca por algo de bom, porque somos feitos para sermos atraídos pelo bem. O problema é que toda vez optamos pelo caminho mais fácil, ou seja, optamos por aquilo que a serpente nos oferece.

Este engano, do trocar o mal pelo bem, é o problema de fundo de todos nós, o problema de fundo da humanidade inteira... o problema diante do qual cada ser humano esbarra e que todo tipo de religião busca resolver...

Este é o problema que nos faz perceber a vida como uma contínua luta entre o bem e o mal, entre algo que queremos desesperadamente (o bem) e outras coisas (o mal) que nunca desejamos, mas que acabam nos corrompendo e dominando...

Os mestres da Lei, que tinham vindo de Jerusalém, diziam que ele estava possuído por Belzebu, e que pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios. (Mc 3,22)

A confusão que se criou em nós é tanta que até chegamos a outro tipo de engano: trocar o bem pelo mal... recusar aquilo que é verdadeiro porque não corresponde aos nossos interesses, porque só o percebemos como uma ameaça contra àquilo que estamos buscando, porque temos esquecido de vez que somos pessoas enganadas...

E isto acontece toda vez que optamos para dizer "não" aos caminhos difíceis que a vida nos oferece, toda vez que nos deixamos corromper para conseguir, à custa dos outros, aquilo que achamos bom apenas pra nós, toda vez que nos deixamos arrastar pelo mal exemplo de quem está ao nosso redor, ou quando desejamos a iniquidade dos poderosos e de quem esbanja seus sucessos...

Mas este é o caminho dos corruptos, é o caminho da hipocrisia, o caminho de quem vira as costas ao bem com a desculpa que todo mundo faz aquilo que quer... este é caminho que torna nossa existência algo de passageiro, que nos conduz para lugar nenhum, no vazio das mentiras que deixamos enraizar dentro de nós...

Com efeito, o volume insignificante de uma tribulação momentânea acarreta para nós uma glória eterna e incomensurável. E isso acontece, porque voltamos os nossos olhares para as coisas invisíveis e não para as coisas visíveis. Pois o que é visível é passageiro. (2Cor 4,17-18)

De fato, uma vez que o "passageiro" se tornou o objetivo da nossa vida, uma vez que, por causa das trevas que nos cegaram, reduzimos o horizonte interior que percebemos dentro de nós, já não seremos mais capazes que reconhecer o bem verdadeiro, e até algo que é ruim o estaremos escolhendo, apenas porque é um bem pra nós, é o bem que nosso egoísmo exige para si...

Mas a luz do bem verdadeiro vai continuar a brilhar sobre nós do mesmo jeito, vai continuar a penetrar por todas as frestas possíveis da nossa existência, deixando viva em nós uma saudade que nenhuma mentira poderá arrancar: a saudade da verdade, a saudade de uma vida autêntica que para ser reconquistada necessita da morte do ditador que está em nós: o egoísmo.

Somente quem abraça esta morte, esta "tribulação momentânea", vai entender e vai sair dos enganos da vida... somente quem está disposto a recuperar o horizonte verdadeiro, que nada e ninguém poderá apagar dentro de nós, descobrirá o caminho que conduz ao bem, o bem autêntico pelo qual somos feitos.

E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: "Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe". (Mc 3,34-35)

Somente quem estará sentado ao redor dEle poderá abraçar a tribulação momentânea, somente quem se deixará purificar a mente e o coração pela Palavra do homem da cruz saberá dizer "sim" ao bem e "não" ao mal mesmo que isso possa custar-lhe a família, as amizades, o trabalho, a saúde, a vida...

Não há libertação dos enganos da vida sem passar por esta tribulação momentânea, não há libertação sem a cruz de Jesus que nos devolve a verdade para que possamos nos tornar aquilo que somos realmente: filhos, pessoas que redescobriram na vontade de Deus a si mesmas.