O que fazer em vista do segundo turno das presidenciais

10/10/2018

O passo pra frente que precisa ser dado pelos católicos brasileiros.

O mês de outubro de 2018 será certamente lembrado como um tempo crucial para o futuro político do Brasil. O país aparece fortemente dividido e, ao mesmo tempo, polarizado numa direção política radicalizada em sentido oposto aos últimos governos.

Isto significa, antes de tudo, que a classe política atual está sendo gravemente rejeitada e o eleitor optou para um voto de protesto, dando confiança a uma opção oposta a quanto acreditava até então.

Contudo a decisão final será realizada no segundo turno, pois ainda permaneceu de pé o consenso para quem protagonizou o caminho político do Brasil da última década. Assim, o tom do confronto tornou-se extremamente duro e cada vez mais popularizado através dos inéditos canais das redes sociais, capazes de veicular novas formas de comunicação e de luta política.

Também a situação entre os cristãos se espelha nestes mesmos moldes, reduzindo cada vez mais a relevância da fé cristã para a condução do país, substituída por interesses sempre mais secundários e particulares.

Em âmbito católico, assistiu-se a uma verdadeira guerra religiosa impulsionada pelo estado de crise generalizada do país, e pela concreta possibilidade, por parte da direita, de alcançar o governo depois de uma década de espera.

Infelizmente os ambientes conservadores católicos permaneceram enraizados numa visão de mundo anacrônica, como se estivéssemos ainda na época da guerra fria das décadas de 60 e 70 do século passado, revisitando com toda força a linguagem anticomunista e elevando aos máximos níveis o alarme religioso. Do outro lado, o eleitor de esquerda, tipicamente alheio à linguagem religiosa, ainda mais apela para a dimensão social e os escândalos sem tamanho das desigualdades.

Cada polo avança por posições inquestionáveis sem nunca se preocupar de construir algo de concreto em comum. As rejeições da corrupção, do aborto, da teoria do gênero, da violência, das discriminações, do racismo, que são inquestionáveis para todos, se tornaram armas para acertar golpes mortais. Mesmo onde precisa de unidade a divisão é máxima.

Reina a desinformação sistemática e planejada, reina a lei do mais forte, de quem grita mais alto, de quem lança as ameaças mais sangrentas e apocalípticas. Reina também, já a muito tempo, o desinteresse, a superficialidade e o conformismo mais descarado.

Infelizmente os católicos deram de si mesmos, para o mundo, a pior das imagens possíveis. No lugar da comunhão, a divisão, o assédio no lugar do diálogo, as mentiras no lugar da verdade. Cada polo não apenas ignora os limites profundos do próprio candidato para rejeitar os do outro, mas chega a identificar, em quem não adere ao seu lado, um inimigo a ser eliminado, como se o eleitor adversário encarnasse automaticamente os males que se tenta eliminar.

Na realidade, a direita se recusa de compreender as razões do voto à esquerda e vice-versa. Há uma indisponibilidade radical em si colocar no lugar do outro, capacidade, no entanto, que deveria estar no nível da excelência, mesmo entre os cristãos, chamados a depositar no coração de cada ser humano o infinito amor misericordioso de Deus Pai.

Recusa-se, como o filho maior do pai misericordioso, de aceitar aquele que voltou, recusa-se de chama-lo de irmão. Recusa-se de acreditar que os milhões que votarão no próprio adversário político são pessoas boas que poderão ajudar o país. Recusa-se de aceitar que o outro lado tem suas razões e suas possibilidades, reduzindo-as irremediavelmente ao nível dos males e dos problemas dele, que existem e são reais.

Neste clima o voto católico será cada vez mais falsificado, fazendo com que o resultado seja devido não a uma escolha consciente, mas a pirraças, fruto de uma adesão impulsionada pelo medo, pela raiva, pela desinformação, de acordo com o lema "o fim justifica os meios, incondicionalmente".

Mas claramente tudo isso deixará uma herança muito mais pesada e sombria. Passada a euforia da vitória, ficará mais evidente um tecido social mais desertificado, mais desconfiado e mais retraído a se engajar realmente para melhorar o país.

Se a direita ganhar, seus eleitores estarão dispostos a considerar "gente" quem votou a esquerda? (Mesma coisa o vice-versa, ainda que isso tenha menos chances de acontecer). Será que, de um dia pra outro, quem foi acusado de abraçar a excomunhão (ou quem virou fascista) vai prestar para alguma coisa?

Sim, para o secundo turno, a Igreja no Brasil está se preparando para torna-se um grande cemitério cheio de vítimas, qualquer que seja o vencedor, onde quem vai sobrar continuará a cultivar uma fé, muito, muito menos católica daquilo que imagina.

A quem desnorteado me pergunta como votar respondo que tenha, antes de tudo, a coragem de enxergar o bom que as duas partes querem defender e depois a amadurecer, diante de Deus, com serenidade e esperança, uma sua decisão pessoal, responsabilizando-se de verdade para mudar as coisas inaceitáveis que o candidato escolhido está querendo receitar ao país.

A quem já está convencido, peço de se questionar e acolher os temores e as ressalvas do outro, renunciando a demonizar, renunciando a esta ridícula guerra religiosa, assumindo, ainda mais, a gravíssima responsabilidade das consequências daquilo que acontecerá se o seu candidato ganhar.

A quem pensa em não votar, ou anular, peço de não virar as costas, mas de contribuir realmente para que amanhã haja outras opções melhores, outras pessoas mais dignas de ser escolhidas, apoiadas e votadas. Senão, cada vez mais, os votos nulos irão aumentar porque a qualidade dos candidatos será sempre mais inaceitável.

De todas as formas, votar não é mais apertar um botão. Votar significa tornar-se pessoa política capaz de diálogo e de escuta, capaz de assumir responsabilidades e de envolver todas as partes para promover e defender o bem comum.

Estamos deixando a política do Brasil sem uma verdadeira presença católica, sem uma verdadeira Igreja, porque desunidos, sem comunhão, sem transparência, briguentos, fratricidas, corruptos.