Figueira, Templo, montanha

06/06/2018

Era tarde, Jesus entrou no Templo. Ficou em silêncio, simplesmente observando... Assim começa o relato de Marcos sobre o famosíssimo episódio da reação violenta de Jesus contra o comércio que prosperava nos espaços da casa de Deus em Jerusalém; fato registrado por todos os evangelistas, cada um segundo um enfoque específico.

No caso de Marcos, uma outra cena serviu de introdução àquela intervenção de Jesus, algo aparentemente sem nexo algum: o próprio Jesus que, pela fome, procura uns frutos de uma figueira para comer, mas numa época do ano em que não era tempo de figos. Claramente Jesus não teria encontrado nada. Ele sabia muito bem. Mesmo assim, chega até a amaldiçoar aquela planta!

Logo após, chegando no Templo derruba tudo e, no dia seguinte, repassando pelo mesmo caminho, os discípulos (Pedro, em particular, que foi a fonte principal do evangelista Marcos) se deparam com algo dramático: aquela figueira amaldiçoada por Jesus secou até a raiz. Diante disso, a única resposta do mestre foi o convite a ter a certeza que, pela fé, até uma montanha poderá ser jogada no mar!

Como ler e interpretar tudo isso? Será que Jesus, tendo ficado com raiva da figueira, descontou tudo no pessoal do Templo?

A figueira é um símbolo: representa o próprio Templo, aliás, representa o inteiro sistema religioso judaico que funcionava totalmente ao redor do seu lugar mais sagrado. Um sistema parecido a uma figueira cheia de belas folhas, ou seja, cheio de uma imponente exterioridade, feita de rituais solenes repetidos inúmeras vezes. Uma aparência que faria pensar logo a bons frutos, mas, afinal, comércio, ganância, interesses, corações endurecidos e cegos...

Estes frutos serão realmente bons? Quando chegar o tempo dos figos, qual será a qualidade deles? Na realidade, eles são algo de mortal: porque o mundo religioso judaico fracassou na sua missão de acolher o verdadeiro Messias e com este a verdadeira aliança com Deus que está na plena adesão à vida de Jesus.

A maldição de Jesus contra a figueira corresponde, portanto, aos gestos que Ele teria feito no Templo, derrubando as mesas dos cambistas e vendedores etc. E isto corresponde não tanto a um querer mal, mas a um desvendamento de uma verdade dolorida: o viver a fé segundo aquele sistema religioso falsificado levará irremediavelmente à morte, só produzirá frutos mortais.

Esta morte, por sua vez, é representada na figueira seca do dia depois. Não foi Jesus que a fez morrer: mas a autoridade dEle mostrou aquilo que para todos era invisível, mostrou o êxito do sistema judaico fechado ao acolhimento do verdadeiro Messias, o único que pode trazer vida para o povo.

Através dessa estrutura narrativa, Marcos convidava sua comunidade, os cristãos para os quais ele estava escrevendo, a perceber quanto facilmente nosso culto a Deus pode se corromper e tornar-se uma máquina de morte se não cuidamos de cultivar os verdadeiros e bons frutos, que podem ser amadurecidos apenas a partir de uma atitude de conversão permanente a Cristo.

E a montanha que pela fé pode ser jogada no mar? A intenção de Jesus é aquela de nos dar a garantia de que tudo aquilo que pediremos ao Pai encontrará resposta positiva. Mas sobre o que concretamente Jesus está pensando? Na realidade, a resposta está no centro do agir de Jesus: somente Ele tem a capacidade de desvendar a verdade, mostrar o rumo da nossa vida e a qualidade dos frutos que aparecerão no devido tempo.

Acolhendo o discernimento de Jesus, nada tem maior valor do que pedir ao Pai de colocar nossa existência no caminho da vida: por quanto grande possam ser os obstáculos, por quanto as coisas que nos aprisiona numa vida encaminhada rumo à morte possa ser do tamanho de uma montanha, pela fé em Jesus, esta mesma montanha poderemos joga-la no mar, poderemos devolver às trevas a escuridão que nos oprime (pois o mar, nas Escrituras, é simboliza exatamente o mal).