Da palavra criadora de Deus para o “sim” tímido e frágil de sua criatura

04/09/2018

Cresci numa paróquia do interior de Pádua, na Itália. Uma paróquia bem pequena, conduzida por um pároco que acompanhou praticamente toda minha caminhada eclesial, desde o começo da catequese até a idade adulta.

Lembro-me que, na faixa dos 10 anos, algo de muito novo entrou na minha vida: a consciência de pertencer, por tradição familiar, a uma religião, e estar num mundo caracterizado pela existência de muitas religiões. Assim, desde esta simples constatação, veio o questionamento sobre o continuar a ser cristão, ou não: será que minha religião era aquela certa? Aliás: existia uma religião "certa"?

Juntamente a estas perguntas interiores, aquela mesma época foi marcada pelo encontro, ainda que muito simples, com alguns missionários. Pessoas que afirmavam de ter saído da Itália para morar em lugares muito distantes, junto a pessoa de outra língua, outra cor, outra situação de vida. Isso correspondia também a uma outra tomada de consciência: aquela sobre a existência da pobreza e da desigualdade em proporções planetárias...

Estudando e conhecendo melhor as coisas, pude dar-me conta como, entre todas as religiões, uma só, não apenas contava com pessoas dispostas a viver para ajudar os pobres, mas uma só se baseava neste sair ao encontro dos outros, até os confins do mundo, a começar pelos mais fragilizados... e esta era mesmo a religião que anunciava Jesus, aquela que eu mesmo tinha recebido.

"Você vai fazer o mesmo daqueles missionários?" Esta foi a pergunta interior que começou a surgir em mim de uma forma completamente espontânea, sem reflexão alguma... uma pergunta que, de alguma forma, trazia em si a resposta: "Claro que sim!" Era como o encontrar-se diante de uma realidade, a realidade da evangelização, e descobrir-se completamente em sintonia, sem necessidade de explicação alguma.

"O sentido da vida é anunciar Jesus". Assim poderia se resumir a compreensão que percebia eu tinha que assumir para mim mesmo. Uma ideia que, porém, parecia carecer de algo para se tornar realidade concreta. Um elemento do qual não conseguia me dar conta, como se eu mesmo estivesse ainda dentro de um processo de encarnação bem devagar, que deixava minha vida real dentro da rotina diária de um rapaz adolescente, cuja vida passava basicamente entre os ambientes da família, da escola e da Igreja.

Assim o tempo passou sem nenhuma decisão, sem nenhuma ruptura, sem um passo concreto para fora do meu mundo e para dentro aquela realidade desconhecida e estacionada no coração, até chegar na fase da descoberta e do confronto com o mundo feminino, dando seguimento, sem muito pensar, ao desejo de estabelecer um relacionamento, mas tendo claro que isso significava fazer a opção pelo matrimônio.

Realmente, entorno dos 18 anos resolvi decidir que minha escolha podia mudar para a vocação ao matrimônio. Afinal o outro caminho parecia não ter força para se opor, parecia não ter voz... Em breve me encontrei dentro de um relacionamento sentindo-me seguro de poder me responsabilizar para um compromisso permanente, "até que a morte não nos separe".

Mas aconteceu que aquela experiência do namoro terminou e eu tive que voltar atrás, podendo, de certa forma, retomar a decisão sobre minha vida. Mas nos primeiros anos o curso da vida me proporcionou outra grande novidade, que, até então, acredito nunca tinha experimentado de forma tão intensa: isto é, relacionamentos de amizade muito focados na busca de uma vivência mais corajosa, mais aberta, mais viva da fé.

Mesmo o mergulhar improvisado nestas relações despertaram a antiga inquietação e começaram a dar-lhe aquele corpo que no passado ainda não tinha. Um corpo quase que estranho dentro de mim, que começava a reclamar espaço e atenção. Uma exigência que pedia respostas claras: um lugar e uma realidade na Igreja onde se concretizar. Nesta época, trabalhava já como engenheiro elétrico, iniciando uma carreira bem em sintonia com todos os estudos realizados. Um trabalho que me dava satisfação e total liberdade de expressão.

Paradoxalmente, porém, aquilo que interiormente valorizava mais do trabalho era o contato com os colegas, a possibilidade de estabelecer com eles um relacionamento voltado a comunicar a fé. Era isto aquilo que eu queria e que me estimulava acima de tudo. Até o ponto de ter claro que aquela experiência de trabalho era só a última etapa de uma vida que estava terminando. Tinha que seguir outra: aquela totalmente dedicada ao Evangelho.

Quando interiormente resolvi dar o "sim" a esta nova vida, me comprometendo para que isso se tornasse realidade, também apareceu a oportunidade. Conheci, de fato, de forma bem improvisa, a Comunidade Missionária de Villaregia, Obra à qual comecei me aproximar e a participar, vivendo outra grande novidade da minha vida: o discernimento vocacional junto a outra pessoa. Até então tinha prosseguido sempre sozinho, refletindo por minha conta. Agora se tratava de viver o confronto e tomar decisões reais.

Embora não me identificasse em vários elementos, uma única determinação foi me guiando: a necessidade de dar este passo e de cortar definitivamente com pouco mais de 30 anos de vida passados na espera. Assim, no final de agosto de 2006, manifestei o pedido oficial para entrar nesta obra missionária, a única que tinha conhecido um pouco no passado. Informei a família, pedi as contas no trabalho, e, no começo do ano de 2007, já estava morando em outro lugar. Mas minha maior alegria foi saber que mesmo no final do mês de outubro daquele ano, o mês missionário, teria começado a morar em outro continente! Nas Américas; no Brasil; em Belo Horizonte.

Assim, em terra mineira começou a se concretizar esta nova vida ao longo sonhada. A vida de missionário. Foram cinco anos sobretudo de estudo e iniciação à vida comunitária. Cinco anos que me levaram a refazer, de zero, aquele discernimento de sempre, percebendo como, na realidade, se trata de um processo sempre aberto, sempre orientado a ouvir uma voz que nos conduz para fora de nós mesmos.

Depois de cinco anos na Comunidade Missionária de Villaregia, de um lado percebia claro que o chamado missionário que carregava me levava para outro caminho, do outro, sentia, até com mais força, a necessidade de horar meu compromisso com uma Obra que me acompanhou em tudo e me estava oferecendo uma missão para ser cumprida, dentro do horizonte daquele carisma.

Mesmo diante dessa encruzilhada a vida proporcionou, mais uma vez, algo de novo, inédito, algo que comunica o mistério da Providência na qual estamos continuamente mergulhados. A novidade foi a transferência para São Paulo, logo após de uma profunda mudança interna da Obra à qual pertencia. Poucos meses após a chegada em terra paulista, eu mesmo estava de volta ao Brasil como padre recém-ordenado, depois da viagem à Itália para a ordenação, junto com a família, junto com o irmão que, ao mesmo tempo, dava o passo para a vida matrimonial.

Passar para a sede de São Paulo significou poder iniciar a viver a experiência missionária mais a contato direto com o povo, pois os estudos já os tinha completado. Foi um tempo muito intenso e decisivo para tomar uma nova e radical decisão, que amadureci no final de agosto de 2016, depois de dez anos do primeiro "sim" à vida missionária, isto é a decisão de deixar a Comunidade Missionária de Villaregia com o objetivo de permanecer na Igreja como "missionários diocesano", com o grande sonho de dar corpo àquele antigo propósito de criança.

Acredito que através da Diocese de Campo Limpo - onde já estava atuando como membro da Obra que deixava, e dando-me a oportunidade de me inserir no clero diocesano, - a Providência me ofereceu a possibilidade de buscar, e ao mesmo tempo concretizar, uma vocação missionária sempre mais orientada a ser sinal do chamado ad gentes no âmbito da Igreja Particular.

Completo, mesmo neste período, dois anos dentro desta nova etapa interior de busca e realização, de trabalho intenso e de tentativas rumo novas possibilidades. Com alegria e gratidão estou mergulhado numa intensa rede de relações estabelecidas e cultivadas para anunciar o Evangelho, para que o Evangelho alcance as profundidades do coração do ser humano e ultrapasse barreiras que precisam ser derrubadas ainda.

Completo este texto afirmando que muito espera ainda de ser pronunciado e encarnado, que o mistério da vocação é algo que nos constrói de dentro para fora, da palavra criadora de Deus para o "sim" tímido e frágil de sua criatura.

Pe Andrea Vascon