Como os católicos podem votar hoje

10/10/2018

Votar não é mais apertar um botão.

Nos atuais sistemas democráticos como o do Brasil, o ordenamento político da sociedade se dá através da dialética entre soluções tipicamente capitalistas (direita) e soluções tipicamente socialistas (esquerda).

Sendo essas soluções inspiradas por dois modelos alternativos, o governo de um país prossegue entre a alternância dos dois polos, um que ganha o consenso dos eleitores, enquanto o outro permanece na oposição.

Em cada lado as visões políticas presentes não são unívocas, e sim distribuídas entre posições moderadas (de centro) e posições extremas, até chegar a forças políticas que explicitamente são portadoras de ordenamentos totalitários, baseados na eliminação do adversário e no controle absoluto da sociedade, de acordo com a ideologia inspiradora.

Com relação à visão cristã, organicamente expressa na Doutrina Social da Igreja, o agir político cristão é considerado detentor de uma justa autonomia para elaborar soluções, práticas e contingentes, que sejam coerentes com os princípios baseados na lógica do Evangelho.

Além disso, os cristãos gozam da liberdade de militar em partidos tanto de inspiração de direita quanto de esquerda, na medida em que tais partidos não sejam diretamente enraizados numa identidade explicitamente anticristã.

Mesmo na ausência de uma plena correspondência entre o a lógica do Evangelho e a identidade de um partido, os cristãos que ali escolhem de dar seu voto, ou de se filiar, são convidados a atuar num sentido evangelizador, para impregnar as escolhas políticas concretas que ali são gestadas com os valores do Reino.

Neste cenário, para o eleitor cristão, a formação do consenso para o voto deve ter em conta as duas fundamentais componentes da identidade dos partidos e dos candidatos: o sistema sociopolítico e o modelo sociocultural. Ou seja, qual é a visão política de referência (direita, ou esquerda; moderado, ou radical) e quais são os valores humanos e sociais mais perseguidos e valorizados (por exemplo a honestidade que está do lado oposto de qualquer atitude de envolvimento e conivência com corrupção), sobretudo em vista daqueles elementos da realidade humana que o Evangelho considera não negociáveis, como o "sim" à vida.

Portanto, não é correto escolher partido e candidatos se baseando apenas nos próprios interesses pessoais de trabalho, ou de família, ou interesses particulares ligados ao próprio ambiente de vida. Pelo contrário, a escolha deve ser amadurecida por uma avaliação global e equilibrada de todos os elementos, a partir do histórico concreto dos partidos e dos candidatos e do realismo das novas propostas avançadas.

É claro que numa sociedade cada vez mais secularizada e pluralista o eleitor católico encontrará cada vez mais dificuldade em si identificar em partidos e candidatos, os quais poderão ser portadores de outras visões, até completamente alheias aos princípios cristãos.

Ainda assim, com muito realismo é necessário não se subtrair ao grave dever da participação democrática que o voto pede, e apoiar aquelas forças políticas que poderão melhor garantir, ao menos parcialmente, o bem comum da sociedade, mesmo se, ao mesmo tempo, estas mesmas forças estejam empenhadas em favorecer modelos culturais alheios ao Evangelho.

Não é mais possível acusar quem vota determinados candidatos de serem automaticamente cúmplices daquilo que tais candidatos sustentam: isto é a morte do empenho político, é herança de uma mentalidade de ausência da política, de delega incondicional aos votados do consenso dado.

Ao invés, renunciar a expressar o voto significa simplesmente deixar a outros a decisão. Significa renunciar a um empenho político adequado à realidade. Ninguém poderá viver própria identidade política cristã renunciando a votar. Ninguém poderá concorrer a edificar uma sociedade melhor deixando a outros esta tarefa essencial que é intrínseca à fé.

Na extrema pluralidade e fragmentação dos modelos de vida atuais, o voto consciente do eleitorado católico deve expressar, em primeiro lugar, a vontade de estabilidade do sistema democrático e a disponibilidade em participar, tendo claro o chamado para a evangelização, para ser "sal da terra e luz do mundo".

Votar em um candidato deve ser entendido, antes de tudo, como apoio crítico e responsável para concorrer à elaboração das decisões. Cada vez menos, ao invés, deve ser entendido como consenso passivo e cego, muito menos como entrega a outros das próprias responsabilidades, como se aquele que receberá o mandato de governo fosse um messias capaz de resolver magicamente todos os problemas e desafios de um país.

Votar significa participar e empenhar-se para mudar e sanar à raiz os modelos socioculturais das forças políticas que receberão o consenso para governar, e isto através de uma real evangelização das estruturas democráticas. É impensável que haja partidos e candidatos que simplesmente se conformem aos princípios do Evangelho se os próprios cristãos não dão eles por primeiros os passos necessários para colaborar ativamente e assumir responsabilidades.