ABC da política: História mínima indispensável

10/10/2018

A história confirma: só quem tem vocação de cordeiro pode ser um bom político.

Historicamente o sistema democrático moderno organizou-se a partir da dialética entre duas tendências contrapostas: o capitalismo de um lado (a direita) e o socialismo (a esquerda).

Depois da revolução industrial, do surgimento das ideologias revolucionárias e da formação de sindicatos e partidos políticos, a Igreja Católica foi aos poucos organizando seu próprio pensamento com relação ao ordenamento social, chamado Doutrina Social da Igreja.

À base da Doutrina social estão grandes princípios práticos diretamente inspirados nos valores do Evangelho e voltados a orientar o agir cristão no meio social e político.

Enquanto a doutrina da fé caracteriza-se como conteúdo perene a ser fielmente transmitido ao longo das gerações, os caminhos concretos para o ordenamento social caracterizam-se por serem sempre relativos e contingentes, ligados ao equilíbrio de forças e interesses contrapostos.

O agir político cristão, portanto, goza da justa autonomia no respeito dos princípios orientadores e não pode nunca se identificar numa única orientação política. Pelo contrário, a participação dos cristãos à dialética política deve visar a impregnar com os valores do Evangelho todas as legítimas forças políticas organizadas para concorrer de forma democrática ao governo da sociedade.

Historicamente a militância política cristã sempre foi marcada por profundas contraposições entre áreas de influência opostas, chegando somente em tempos recentes, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, à constituição de partidos políticos diretamente de inspiração católica que puderam, em particular na Europa, reconstruir as bases comuns da convivência, depois dos horrores da guerra.

Enquanto o difícil caminho político dos cristãos ia dando passos, aprofundava-se em nível planetário a contraposição entre dois grandes blocos, um ligado ao capitalismo (o Ocidente, liderado pelos EUA) e um ligado ao socialismo (o Oriente, liderado pela antiga União Soviética).

Contraposição ligada a uma ininterrupta linha de sangue que cercou, e continua em parte cercando, a humanidade dentro da mortal prisão de inúmeros regimes totalitários que reúnem, na mesma praxe de morte, ideologias opostas: os regimes marxistas e maoistas de um lado, nazistas e fascistas do outro.

Neste cenário apocalíptico, que tachou o século XX como o mais sangrento da história da humanidade, os cristãos sofreram profundamente as influências extremas de ambos os lados, criando uma separação cada vez mais profunda entre irmãos de fé orientados à militância na esquerda e na direita.

Atualmente o cenário mundial, reduzido a "aldeia global", registou a preponderância do modelo capitalista e a refundação das organizações socialistas, sobretudo a partir do marco histórico da queda do muro de Berlim em 1989, permanecendo a grandiosa potência chinesa como herdeira do antigo mundo comunista.

Permanece também, em todos os países de raiz católica, o fortíssimo clima de mutua exclusão entre cristãos de esquerda e cristãos de direita, na radical incapacidade de chegar a uma colaboração factual na dialética política, que possa abrir caminhos coerentes para a evangelização dos partidos e das organizações governamentais.

Para além da complexa evolução do conflito entre ideologia capitalista e socialista, outra dimensão de enorme importância entrou preponderantemente em cena nas últimas décadas, em particular a partir do paradigmático ano de 1968, o ano das revoluções socioculturais.

Em brevíssimo tempo tudo mudou: os modelos culturais, o etos, a própria percepção do ser humano, da sociedade e da história. Fala-se de mudança de época, fala-se da mais generalizada fragmentação da ordem humana tradicional e da introdução de novas formas de ser pessoa (ideologia de gênero) e novas formas de comunicação (era digital).

Mais uma vez o agir político cristão encontra-se dividido e arrastado para dentro mecanismo de mutua exclusão, ainda mais radicalizados e demonizados, enquanto valores e 'desvalores' encontram-se misturados entre si, entre partidos e líderes políticos, entre canais de comunicação antigos e redes sociais, onde reina uma aparente liberdade absoluta, onde tudo é afirmado e negado ao mesmo tempo.

Mais uma vez os cristãos precisam voltar atrás, voltar ao Evangelho, e assumir a vocação que este nome indica: a vocação a serem "cordeiros", para que a lei do amor possa dar esperança ao mundo.