2. As raízes dos conflitos

26/09/2019

"conservadores" e "progressistas"

Há já uma literatura imponente sobre a Igreja pós Vaticano II. Apenas poucas décadas de história para um evento que, do ponto de vista dos conflitos em ato, subverteu realidades eclesiais estabelecidas ao longo de séculos. Podemos dizer que antes do Vaticano II os equilíbrios internos da Igreja pareciam permanecer sob o controle de uma alma, aquela "conservadora"; enquanto, após o Concílio, pareceu que a Igreja tivesse sido entregue a uma outra e um tanto desconhecida alma: aquela "progressista". Desde então, estamos num tempo de dramática luta na qual a alma conservadora está à procura para retomar seu antigo controle.

Mas o que seria a alma "conservadora" e a alma "progressista"? Com os termos "conservador" e "progressista" queremos entender os extremos de uma polaridade, posições opostas que atraem a compreensão da fé e da vida cristã. Cada uma das duas posições é baseada em uma interpretação oposta da realidade e da vida humana.

De um lado, a autenticidade do viver para o "conservador" é sempre encontrada no passado, enquanto para o "progressista" é encontrada no futuro. Para os primeiros, é sempre uma questão de retornar a uma origem perdida; para os segundos, é sempre uma questão de alcançar um termo desconhecido.

As lógicas do "conservador" e do "progressista" disputam continuamente a compreensão da realidade da fé, determinando visões opostas da vida eclesial. No primeiro caso, a Igreja é entendida como uma expressão no presente de uma realidade imutável e originária do passado. No segundo caso, é entendida como uma novidade contínua de uma realidade do futuro chamada a se impor no presente.

O "conservador" raciocina a partir da observância de um código determinado de uma vez por todas. Para ele, o menor detalhe da vida só faz sentido se obedecer a um preceito. O "progressista" pensa, ao invés, a partir da superação de uma situação reconhecida sempre contingente. Para ele, não há lei, nada deve embrulhar a vida a qual abre por si só seu próprio caminho.

Para os "conservadores", não há futuro, mas apenas repetição do passado no presente. Para os "progressistas", não há passado, mas apenas um presente que atualiza o futuro.

Para os "conservadores", a tarefa da religião é sujeitar a realidade aos dados originais que o Mistério impõe, enquanto, a fé é essencialmente uma obediência a um padrão de vida que deve ser observado.

Para os "progressistas", a tarefa da religião é libertar a realidade de seus limites atuais que o Mistério denuncia, enquanto a fé é essencialmente uma força para subverter um modelo de vida que deve ser superado.

Para o "conservador", Jesus revela a autêntica lei da vida à qual é necessário se conformar e a essência da fé é definida no dogma ao qual tudo deve obedecer.

Para os "progressistas", Jesus encarna um ideal de vida que sempre desperta mudanças a serem realizadas e a essência da fé é expressa na capacidade de subverter o estado atual.

Com relação à Igreja, o "conservador" é, por excelência, pregado à instituição, cuja pertença a exibe a qualquer momento e a leva aos extremos com o maior orgulho. O "progressista" é o excomungado que está sempre no limite, que pertence a todos e a ninguém, que não se importa se ele está dentro ou fora.

No evangelho, o ícone do "conservador" é o fariseu, enquanto o ícone do "progressista" é o zelote. De um lado, o puro legalista que vive em seu mundo imaginário absolutamente normatizado, separado da realidade do povo oprimido pelo domínio estrangeiro e fechado em suas soberbas certezas. Do outro lado, o revolucionário que vive fora de qualquer tipo de legalidade e imerso na precariedade dos miseráveis, animado apenas pelo sonho utópico de eliminar o invasor.