10. Desde Guadalupe até o Sínodo

25/10/2019

O mistério de uma reconciliação que à qual Igreja busca se abrir



Em 1519, tinham acabado de chegar no México os espanhóis. Com eles alguns missionários acompanhando os conquistadores liderados por Hernán Cortés. A primeira evangelização dos franciscanos e, mais tarde, dos dominicanos, progredia com dificuldade: as conversões eram poucas e frágeis, frequente o sincretismo ou a volta às práticas antigas.

Na realidade, para os nativos asteca, a fé cristã nada mais era que a crença de um povo invasor que rapidamente se tornou dominador e escravizador. No entanto, a partir de 1532 registou-se um aumento considerável dos pedidos de batismo por parte dos próprios índios, sinal que algo de completamente novo tinha acontecido: uma nova forma de evangelização, de fato, estava se alastrando, do índio para o índio.


Tudo começou com a experiência de um deles, Cuauhtlatoatzin, conhecido com o nome cristão de Juan Diego, batizado em 1524 aos 50 anos de idade juntamente com sua esposa. Em dia 9 de dezembro de 1531, a caminho do seu compromisso na igreja de Tlatelolco (atual periferia de Cidade do México), Juan Diego vive aquele encontro que mudará para sempre sua vida e os caminhos da evangelização de um continente inteiro. Próximo a uma colina chamada Tepeyac, uma jovem senhora aproxima-se dele chamando-o e apresentando-se como a "Virgem, Santa Maria, Mãe do Deus".

A novidade radical daquele encontro pode ser compreendida a partir de um conjunto de elementos essenciais para o enraizamento da fé no povo azteca. De fato, o encontro se deu nas proximidades de um importante lugar sagrado indígena ligado à figura de Tonantzin, a Virgem índia "mãe dos deuses" e, neste contexto, aquela que se apresenta a Juan Diego é uma jovem mestiça, nem europeia, nem indígena, profecia do encontro entre dois povos alheios entre si.

A jovem, grávida e em atitude orante, cujas aparências ainda hoje permanecem intactas no manto do índio, traz consigo numerosos elementos da tradição cultural e religiosa atzeca utilizados, porém, para comunicar sua identidade de mãe do Cristo Jesus. A mesma declara-se mãe também do próprio Juan Diego, e de todo o povo atzeca o qual, em seguida, fará própria a aclamação: "Nobre indiazinha, nobre indiazinha, Mãe de Deus! Nobre indiazinha! Toda nossa!"


Estes breves traços de uma história muito conhecida, mas pouco compreendida, nos ajudam a compreender o verdadeiro sentido das palavras do Papa Francisco dirigidas em 2018 aos povos amazônicos no início do processo de preparação do Sínodo para a Amazônia deste outubro de 2019.


Precisamos que os povos indígenas plasmem culturalmente as Igrejas Locais amazônicas... Ajudai os vossos bispos, ajudai os vossos missionários e as vossas missionárias a fazerem-se um só convosco e assim, dialogando com todos, podeis plasmar uma Igreja com rosto amazónico e uma Igreja com rosto indígena.

(Papa Francisco. Discurso em Puerto Maldonado, 19/01/2018)


Quase 500 anos atrás a própria Virgem Maria mostrou como é possível inculturar a fé em tradições completamente alheias ao mundo ocidental, e isto fazendo com que os próprios indígenas fossem evangelizadores com sua própria identidade cultural. Mais ainda, mostrou qual é o caminho da verdadeira evangelização, que necessariamente se dá por um processo de inculturação. Este é o único modo de evangelizar que deve ser posto em ato e aplicado para um verdadeiro anúncio do Evangelho.

Evangelizador, portanto, é aquele que se torna capaz de si fazer um com seus destinatários, traduzindo a mensagem da fé a partir linguagem cultural e religiosa deles, sabendo distinguir o próprio conteúdo da fé da sua expressão culturalmente definida. Evangelizador é aquele que se incarna na vida do outro, assim como o próprio Deus Filhou se incarnou.

Na história de Juan Diego, será o tio dele, milagrosamente curado pela jovem mestiça, a transmitir o nome com o qual será lembrada: Guadalupe. Nome que aos espanhóis remete logo uma devoção mariana surgida séculos antes na própria Espanha, na época da invasão árabe: mais uma vez a fé autêntica coloca-se acima de uma identidade cultural porque quer abraçar todas as culturas, para comunicar através delas o amor de um Deus que é Amor.